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Estratégia para Varejo de Moda: quando o clima não acompanha o calendário

23 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 7 de out.

Por Márcia Pino — Studio Mah Pino | Estratégias para Varejo


Durante muito tempo, o varejo de moda trabalhou com um calendário relativamente previsível.

Chegava o outono, entravam as peças mais pesadas.

Chegava a primavera, as vitrines ganhavam cor.

O verão trazia vestidos, shorts, regatas e moda praia.

O inverno justificava casacos, tricôs e sobreposições.

Mas o consumidor continua olhando o calendário. O clima, nem sempre.

E é justamente nesse cenário que a estratégia para varejo de moda precisa acompanhar não apenas o calendário comercial, mas também o comportamento do clima e do consumidor.

Estamos entrando na primavera e, em muitas regiões do Brasil, especialmente no Sul e em partes do Sudeste, a sensação de mudança de estação ainda não aconteceu de forma clara. Chuva, oscilações de temperatura e períodos mais amenos convivem com dias que podem esquentar rapidamente.

E isso cria um dos grandes desafios atuais para quem trabalha com moda:

Como vender uma coleção criada para uma estação quando o clima não acompanha o calendário comercial?

O problema começa muito antes da vitrine...

Quando uma coleção de primavera/verão chega à loja e o consumidor ainda está sentindo frio ou enfrentando vários dias de chuva, é muito fácil concluir que “a coleção não vendeu”.

Mas precisamos tomar cuidado com esse diagnóstico.

Talvez o problema não esteja no produto.

Pode estar no timing entre compra, clima, exposição e comunicação.

A moda trabalha com muita antecedência. A indústria precisa desenvolver, produzir e entregar. O lojista precisa comprar meses antes de saber exatamente como estará o clima quando aquela mercadoria chegar à área de vendas.

É aí que aumenta o risco.

Porque estoque não entende previsão do tempo.

Ele continua imobilizando dinheiro dentro da loja.

O calendário comercial precisa aprender a conviver com a instabilidade.

Não significa que devemos parar de comprar verão porque setembro começou chuvoso.

Também não significa manter a loja com aparência de inverno até o termômetro subir.

Significa trabalhar de maneira mais inteligente.

A loja precisa aprender a operar entre estações.

Uma regata pode aparecer coordenada com uma camisa.

Um vestido leve pode receber uma terceira peça.

O short pode ser apresentado com uma parte de cima que funcione em dias mais amenos.

A calça pode conversar com uma peça de verão.

O produto não precisa esperar a temperatura perfeita para ser vendido. Ele precisa encontrar contexto para ser desejado agora.

É aqui que Visual Merchandising deixa de ser simplesmente organização e passa a fazer parte da estratégia comercial.

O erro está em comprar pensando em uma estação rígida.

Para mim, esse é um dos pontos que o varejo de moda precisa começar a discutir seriamente.

Pare de pensar no que comprar para o verão, e pense que mix consegue atravessar diferentes temperaturas dentro do mesmo período.

Isso muda a compra.

Muda profundidade.

Muda quantidade.

Muda coordenação.

Muda exposição.

E principalmente muda a maneira como analisamos estoque.

Uma loja que concentra demais sua compra em produtos extremamente sazonais aumenta sua dependência do clima.

Quanto mais versátil for o mix, maior a capacidade de reagir.

E existe outro perigo: comprar pelo clima de hoje

Se está chovendo agora, o lojista segura o verão.

Se esfria, volta a comprar produto pesado.

Se faz três dias de calor, corre para comprar peças leves.

Esse comportamento também é perigoso.

Compra não pode ser reação emocional ao termômetro.

O lojista precisa olhar previsão climática, histórico de vendas, cobertura de estoque, giro, categoria, comportamento regional e necessidade real do consumidor.

Clima passa a ser mais um dado dentro da inteligência comercial.

Não o único dado.

A vitrine também precisa ficar mais rápida, se o clima muda rapidamente, não faz sentido uma loja manter exatamente a mesma comunicação durante semanas.

O Visual Merchandising precisa ganhar velocidade.

Chegou uma janela de calor?

Traga imediatamente os produtos leves para os pontos quentes.

A previsão mostra vários dias de chuva?

Mostre coordenações de meia-estação.

O fim de semana será quente?

Antecipe a comunicação na quinta-feira.

Isso vale para vitrine, manequins, entrada da loja, araras estratégicas, WhatsApp, Instagram e live.

A loja precisa aprender a conversar com o momento sem perder a estratégia da coleção.

Moda praia talvez seja um dos maiores exemplos, existe uma tendência de associar moda praia exclusivamente a sol e temperatura alta.

Só que o consumidor não compra apenas para usar naquele dia.

Ele compra pensando em viagem.

Férias.

Piscina.

Resort.

Feriado.

Natal.

Réveillon.

Verão.

Por isso, uma sequência de dias chuvosos não deveria ser suficiente para determinar que “moda praia não vende”.

Talvez seja necessário mudar a narrativa.

Em vez de vender somente uma peça para o calor, é possível apresentar um universo de verão e antecipar ocasiões de uso.

Esse raciocínio vale para diversas categorias.

O clima também muda o marketing, durante anos, campanhas foram construídas quase exclusivamente pelo calendário.

“Chegou a primavera.”

“Coleção de verão.”

“Prepare-se para o inverno.”

Essas frases continuam fazendo sentido, mas talvez já não sejam suficientes.

A comunicação precisa observar o que o consumidor está vivendo.

Imagine anunciar “o verão chegou” para uma cliente olhando pela janela e vendo chuva há cinco dias.

Existe uma desconexão.

A campanha pode continuar falando de verão, mas precisa reconhecer o momento.

O desejo pode antecipar a estação sem fingir que o clima já mudou.

Essa diferença parece pequena. Comercialmente, não é.

O varejo precisa ficar menos dependente do calendário e mais inteligente.

Não acredito que a solução seja abandonar as estações.

A moda continuará precisando de ciclos, lançamentos e renovação.

Mas acredito que teremos de trabalhar cada vez mais com transição, versatilidade e velocidade de resposta.

Comprar melhor.

Acompanhar previsão climática.

Reduzir apostas excessivamente sazonais.

Construir famílias de produtos.

Criar looks que atravessem temperaturas.

Alterar rapidamente a exposição.

Comunicar ocasião de uso.

Uma estratégia para varejo de moda mais eficiente passa, portanto, por integrar compra, estoque, Visual Merchandising, comunicação e leitura do momento.

E, principalmente, parar de esperar o clima perfeito para começar a vender.

Porque talvez esse seja o novo desafio do varejo de moda:

a estação está no calendário, a coleção está dentro da loja, mas o consumidor está vivendo outra temperatura.

Entre essas três realidades está a estratégia.

E é justamente aí que o varejo profissional precisa atuar.

O clima nós não controlamos.

O estoque, a compra, a exposição e a estratégia de venda, sim.



Marcia Pino - Visual Merchandising I Estratégia I Varejo de Moda

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